Pela senda da auto-publicação: como publicar e distribuir um livro de forma independente

Nesta quarta parte da minha longa série sobre auto-publicação, vamos finalmente falar sobre o processo de publicar um livro em diversos formatos e plataformas.

Perguntas sobre as diferentes etapas do processo de auto-publicação incluindo edição e revisão foram respondidas nos artigos anteriores desta série:

Parte 1: Vale a pena auto-publicar um livro?

Parte 2: A auto-publicação é para todos?

Parte 3: Como rever e editar um livro antes de auto-publicar?

Embora a auto-publicação seja um modelo cada vez mais respeitado por escritores e leitores a nível mundial, existem ainda muitos preconceitos e conceções erradas sobre este modelo.

No fundo, ao auto-publicarmos um livro estamos a aceitar que não seremos apenas autores, mas também gestores do nosso pequeno negócio onde os produtos serão os nossos livros.

Há quem diga que os autores independentes têm também de ser empreendedores e eu cada vez mais dou comigo a concordar com isto.

Com um aumento da flexibilidade e liberdade criativas, os autores independentes herdam também um tremendo fardo de responsabilidade.

A responsabilidade de construir e nutrir uma audiência através das redes sociais, newsletters e sites, a capacidade de aceitar e aprender com os fracassos e, acima de tudo, a habilidade de inovar e continuar a investir quando ninguém acredita nos nossos projetos e nada corre como queremos.

A auto-publicação é um desafio a muitos níveis. Se por um lado nos obriga a dar passos de fé, por outro também nos obriga a tomar decisões difíceis quando os resultados não são o que esperávamos.

Publicar: como e onde?

Depois do processo de edição, revisão, e preparação da capa, começa uma das etapas mais avassaladoras e tecnicamente desafiantes de todo o processo: escolher onde e como vamos publicar.

Antes de tomar qualquer decisão, é preciso compreendermos que nenhuma opção é perfeita e que aquilo que funciona para um determinado escritor e para um determinado livro, pode não funcionar para ti.

Mas vamos por partes.

Para te ajudar no processo de decisão, elaborei uma pequena lista de perguntas para te guiar neste processo. Antes de tomares qualquer decisão que seja, convido-te a pensar:

  1. Em que formato queres publicar o teu livro: ebook, capa mole, capa dura, audiobook?
  2. Em que países queres distribuir o teu livro: países de língua portuguesa apenas? Ou em todo o mundo?
  3. Quanto é que queres investir e quanto tempo tens disponível: tens um orçamento reduzido e algum tempo disponível? Ou preferes optar por soluções mais caras para otimizar o teu tempo?

Aqui queria aproveitar para fazer um pequeno parêntesis. Muitos autores sonham em crescer no mercado brasileiro, contudo, existe um pequeno fator que nem todos os autores têm em conta: a nossa divergência cultural e linguística.

Enquanto que a literatura espanhola pode ser consumida da mesma forma de ambos os lados do oceano Atlântico, a literatura portuguesa não. A variação linguística entre o português de Portugal e o português do Brasil faz com que o “salto” para esse mercado seja uma proeza difícil de conseguir.

Existem formas de ultrapassar essas dificuldades incluindo a adaptação linguística do nosso livro ao português do Brasil (algumas empresas como o Projecto Foco, também oferecem estes serviços!).

Mas será que a adaptação linguística é suficiente para entrar no mercado brasileiro?

O mercado literário brasileiro é muito mais dinâmico que o nosso.

Neste sentido, para além da adaptação convém considerares colaborar com artistas e influencers brasileiros. Uma obra que é aceite em Portugal pode não convencer os leitores do outro lado do Atlântico, mas se quiseres tentar a tua sorte nesse mercado, sugiro que te prepares o melhor possível e que vás cultivando essa audiência também.

Formatos de publicação: qual ou quais escolher?

Antes de tomares esta decisão, deves lembrar-te de algo importante: são as preferências dos teus leitores, ou de leitores do género em que escreves, que devem ditar os formatos de publicação.

A história pode ter nascido do teu trabalho e criatividade, mas o livro é a materialização dessa história e para que esse livro chegue aos leitores certos, deves considerar os formatos que eles mais gostam de ler.

Apesar dos ebooks estarem a tornar-se cada vez mais populares dentro da comunidade livrólica, o livro físico ainda é o formato dominante.

Isto significa que se decidires publicar apenas em formato ebook, estarás a reduzir seriamente o alcance da tua história.

São muitos os leitores que não leem em formato ebook, seja por não possuírem um ereader e não gostarem de ler no telemóvel ou computador, seja por passarem todo o dia agarrados a ecrãs e precisarem de se desligar da luz artificial e da fatiga ocular ao fim dos seus longos dias de trabalho.

Por estas razões, recomendo que disponibilizes o teu livro no mínimo nestes dois formatos: ebook e capa mole.

Então e os livros em capa dura e os audiobooks?

Por vezes quando nos queremos diferenciar das massas, pode ser benéfico adotar um formato menos usual de publicação.

Contudo, eu recomendo cautela na hora de tomar esta decisão. Ela apenas faz sentido se já tiveres uma base solida de leitores fiéis que estão dispostos a pagar por edições especiais do teu livro. Caso contrário, estás apenas a colocar mais pressão desnecessária em cima dos teus próprios ombros.

Aprender a publicar é um processo complicado, não te coloques numa posição difícil sem antes dominares os básicos.

Uma pequena nota

Sou uma mega fã de podcasts e de audiobooks e acredito que estes formatos de publicação têm um grande potencial de crescimento. O mais interessante é que os países de língua portuguesa estão apenas agora a entrar nessa onda, por isso acredito que publicar um audiobooks é um grande fator diferenciador (mais do que os livros em capa dura)!

Existem muitos autores que gravam os seus próprios livros (Neil Gaiman e Toni Morrison são apenas alguns exemplos). Se já ouviste estas narrações vás entender quando digo que é uma experiência especial ouvir uma história narrada pelo próprio autor. Faz com que nos sintamos mais envolvidos no universo por ele/ela criado.

Se sentes que isso é algo que gostavas de fazer, atira-te! Com o equipamento certo (que não tem de ser estupidamente caro) e com ajuda de alguém que perceba de produção de áudio, podes produzir um audiobook e conquistar mais um segmento de leitores: aqueles que estão demasiado ocupados para se sentarem a ler um livro (eu incluo-me neste grupo!)!

É importante que adotes formatos que causem o menor atrito possível na vida dos teus leitores. Porque não testares o lançamento do teu livro por episódios de 10-20 minutos? Lembra-te que são muito poucas as pessoas que estão dispostas a dar uma oportunidade a novos autores, torna este processo o mais fácil possível ao escolheres formatos mais versáteis de publicação.

Modelos de impressão de livros físicos

Antes de atacar o monstro da distribuição, vamos começar pela impressão dos livros físicos.

Essencialmente, existem dois modelos de publicação de um livro físico: o tradicional e o modelo de “print on demand”.

No modelo tradicional, cabe ao autor contactar gráficas e decidir quantos livros imprimir, como e onde guardar os livros e como enviá-los aos compradores. Neste modelo, o autor não suportara apenas os custos de edição, revisão e desenho gráfico, mas terá também de absorver os custos de impressão dos seus livros antecipadamente.

Este modelo também implica que faças a gestão do teu próprio stock e se nunca tiveste a oportunidade de fazê-lo, posso apenas dizer que é muito mais complexo do que aquilo que parece à primeira vista – principalmente se, para além da tua vida de escritor, tens um emprego a tempo inteiro.

No modelo de “print on demand”, o autor pode livra-se do fardo imposto pela aquisição e gestão de stock.

Neste caso, o autor escolhe trabalhar com fornecedores que têm uma larga rede de distribuição e que imprimem os seus livros apenas quando estes são vendidos. Este é o modelo que mais protege os autores independentes dos riscos da auto-publicação.

Para além de não teres de acumular centenas de exemplares dos teus livros em casa, não tens de pagar antecipadamente os custos da impressão nem investir o teu tempo em distribuir esses livros.

Não eliminas os custos de impressão, apenas os diluis e transferes para uma etapa do processo com menos riscos para ti. Em vez de pagares estes custos antecipadamente, o valor da impressão é descontado diretamente do valor da venda.

O aspeto menos vantajoso deste modelo é a qualidade de impressão geralmente menor em comparação com aquela que obténs numa gráfica tradicional (mais uma vez, quando falo em gráficas não me refiro a “Vanity Press”, existem muitas boas gráficas em Portugal que não cobram os preços exorbitantes de certas “Vanity”, nem retêm os teus direitos de publicação! Proteger os teus direitos é vital, não te esqueças disso).

Vamos resumir as vantagens e limitações de cada modelo:

 Tradicional“Print on demand”
VantagensMaior qualidade de impressão Maior versatilidade no formato e material usado na impressão Mais fácil acesso a copias para venda imediata (em feiras e outros eventos literários)Menor risco para o autor – não é necessário pagar os custos de publicação antecipadamente Menor investimento de tempo na gestão de stock (o distribuidor imprime, envia os teus livros, e trata de devoluções) Estas plataformas tratam também da distribuição em plataformas como a Amazon Se encontrares erros ortográficos nos teus livros, é mais simples que os corrijas sem teres de sacrificar o stock pré-existente
DesvantagensMaior investimento em aquisição e gestão de stock Maior risco financeiro para o autor Necessidade de tratar das vendas diretas e otimizar redes de distribuição – exige muito investimento de tempoMenor qualidade de impressão em comparação com gráficas tradicionais As copias de autor podem demorar bastante tempo a chegar às tuas mãos Menos versatilidade a nível de formatos de impressão (material e tamanho)  

Mas será que podemos apostar nos dois modelos? SIM!

Lembra-te que, como autor independente, tu deténs os direitos de impressão e publicação dos teus próprios livros. E isto é algo que podes usar a teu favor – nomeadamente se decidires investir em eventos presenciais como feiras, conferências literárias, tertúlias, visitas a escolas, patrocínio de clubes de leitura, etc.

Os eventos presenciais ainda são extremamente importantes, principalmente quando ninguém conhece o teu trabalho. Não os descures, atreve-te e lança-te, são muitas as pessoas que gostam de falar diretamente com o autor antes de decidir se devem ou não comprar um livro.

Nota: todos conhecemos autores que são perfeitos idiotas em conferências literárias, não sejas essa pessoa. Empatia, abertura, e humildade acima de tudo, podes ter escrito um livro ou vários, isso não faz de ti um ser humano melhor ou pior, apenas diferente!

Quais são as maiores plataformas de publicação e distribuição independentes?

Agora que consideramos todos os pequenos detalhes que influenciam a decisão de como e onde publicar, vamos falar do monstro da distribuição e publição.

Atualmente, são duas as plataformas que dominam o cenário da publicação e distribuição independentes:

Esta empresa oferece os três maiores formatos de publicação (ebook, capa mole e capa dura) no modelo de “print on demand” e tem a maior rede de distribuição de todas as empresas de publicação a nível mundial (incluindo Amazon e eles têm inclusive parcerias com gráficas no Brasil para que os livros sejam impressos localmente).

A IngramSpark também ganha em questão de qualidade de impressão. Aconselho-te a ver os vídeos de “unboxing” destes livros para perceberes até que ponto eles são bem impressos.

Com esta empresa consegues um nível de distribuição mais alargado (incluindo em “retailers” como a Amazon) e podes fazer campanhas de pré-lançamento em todos os formatos.

Os pontos negativos de trabalhares com esta empresa são: o péssimo serviço ao cliente (não tenho experiência, mas tenho ouvido todas as historias de terror), plataforma pouco “user-friendly”, o acesso a dados de vendas e pré-vendas é limitado, tens de pagar uma taxa de publicação (por volta de $49 por cada formato de publicação) e uma outra taxa sempre que tiveres alterações a fazer quer a nível do texto ou da capa (cerca de $25).

O KDP é o antigo serviço conhecido como CreateSpace. Faz parte da Amazon e tem sido considerado por muitos como a melhor plataforma de auto-publicação para autores independentes.

De momento podes publicar os teus livros em formato ebook e em capa mole (paperback) de forma totalmente gratuita através do KDP.

Não pagas nenhuma taxa de publicação à partida, apenas “pagas” a taxa de impressão sempre que vendes um exemplar e ainda tens direito a reter entre 35-70% dos direitos de autor (dependendo do preço do teu livro e do modelo de distribuição).

O serviço ao cliente é exemplar (momento fangirl: é fantástico, adoro-os, respondem super-rápido e são muito queridos! – final do momento fangirl), a plataforma é muito fácil de usar, os dados são atualizados em tempo real (exceto com os livros físicos, que têm um desfasamento de 3 a 5 dias – que é o tempo que os livros demoram a ser impressos) e tens acesso a muito material de formação de boa qualidade.

Se inscreveres o teu livro no Kindle Select e publicares na Amazon de forma exclusiva durante um período mínimo de 3 meses, podes fazer promoções exclusivas para criar mais interesse à volta do teu livro.

Mas não pode ser tudo rosas, pois não?

Vamos então aos pontos negativos.

Para quem escreve em português, o ponto fraco do KDP é o fato de não poderes publicar na Amazon Brasil. Os teus livros físicos apenas ficaram disponíveis na Europa, Estados Unidos, Canada e Japão. Isto vai dificultar a tua entrada no mercado brasileiro caso seja esse o teu objetivo.

Outro ponto negativo é o fato de apenas podes vender o formato ebook durante o período de pré-lançamento e o fato da qualidade de impressão ser visivelmente inferior à do IngramSpark.

Se queres entrar no mercado brasileiro, aconselho-te a tentares arranjar um distribuidor e gráfica locais, mas prepara-te para investir.

E a distribuição de ebooks?

O formato ebook abre-te as portas para uma distribuição mais alargada das tuas obras.

Atualmente, as maiores plataformas de distribuição exclusiva no formato ebook são:

  • Amazon – acessível através do KDP
  • Rakuten Kobo
  • Apple Books
  • Google Play Books

Contando que não adiras ao programa Kindle Select (que te obriga a uma distribuição exclusiva na Amazon), podes fazer o upload do teu ebook em todas estas plataformas individualmente ou usar serviços de agregação como o Smashwords ou o Draft2Digital que fazem o upload a todas estas plataformas e a outras que não estão acessíveis aos autores diretamente (como certas bibliotecas).

A desvantagem dos agregadores é que, para além das taxas de venda que pagas a cada um dos distribuidores do teu livro, tens também de pagar uma pequena taxa aos agregadores.

Se escreves em português, não sei se valera a pena sacrificares parte dos teus direitos de autor em prol da distribuição alargada fora do mercado português.

Como escolher entre distribuição alargada e exclusiva?

Esta não é uma decisão fácil de tomar.

O que aprendi com a publicação do meu conto “O Caça-Cidades” é que em Portugal são bastantes as pessoas que têm um Kobo. Nesse sentido, arrependo-me um pouco da minha decisão de publicar exclusivamente na Amazon sendo que isso me impediu de chegar a estes leitores durante os primeiros meses da publicação.

Claro que para certos géneros literários e certas obras com adaptação linguística ao mercado brasileiro, a distribuição exclusiva na Amazon pode ser uma boa solução.

Tem em conta que podes publicar uma versão do teu livro (com um ISBN) no mercado europeu e outra versão no mercado brasileiro (com outro ISBN), desta forma garantes que a tua obra se adapta ao mercado e à audiência causando o menos atrito possível!


Espero que este artigo te tenha sido útil! Se tiveres perguntas, não te esqueças de deixar o teu comentário!

Até à próxima


Créditos da imagem: jesse ramirez on Unsplash

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